Delivery
Keeta, 99Food e iFood: vale colocar seu delivery em mais de um aplicativo?
A Keeta voltou a crescer, chega a 21 novas cidades e a Justiça derrubou cláusulas de exclusividade. Veja como decidir se entra em outro app de delivery sem perder margem nem bagunçar a cozinha.
Durante anos, a pergunta do dono de delivery era só uma: "como vender mais no iFood?". Em outubro de 2026 a pergunta mudou. A Keeta, aplicativo da chinesa Meituan, anunciou no dia 6 que vai começar a operar em 21 novas cidades, de Araçatuba (SP) a Passo Fundo (RS), e a 99Food segue chamando restaurantes com a promessa de taxa zero. Muita gente que nunca tinha recebido uma proposta de outro aplicativo vai receber agora.
Antes de assinar, vale entender o que mudou e fazer a conta do jeito certo. Entrar em mais um app pode trazer cliente novo, mas também pode só dividir os mesmos pedidos em mais lugares, com mais trabalho e a mesma margem.
O que mudou no delivery em 2026
- A Keeta voltou a crescer. A empresa chegou a Santos e São Vicente em outubro de 2025, opera em 11 cidades paulistas e tinha suspendido a expansão em fevereiro. Agora anunciou 21 cidades novas em Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo, com um plano de R$ 5,6 bilhões em cinco anos.
- A exclusividade perdeu força. Em 29 de setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo considerou ilegais as cláusulas da 99Food que proibiam restaurantes parceiros de trabalhar com outro aplicativo. Segundo a Keeta, contratos desse tipo prendiam mais da metade das redes com cinco lojas ou mais. A decisão ainda pode ser contestada, então leia o seu contrato com atenção.
- A 99Food voltou com taxa zero. Quando relançou o delivery, em abril de 2025, a empresa anunciou isenção de taxas e comissões para restaurantes por 24 meses. As condições exatas e o que vale depois desse período estão no contrato de cada loja.
- O iFood continua sendo a maior vitrine. No plano Entrega (o iFood leva o pedido), a comissão é de 23%, mais 3,2% de pagamento online. No plano Básico (você entrega), é de 12%, mais 3,2%. Os dois têm mensalidade quando a loja vende mais de R$ 1.800 no mês, e os valores podem variar por região e categoria.
Entrar em outro aplicativo não é só abrir mais uma loja
Cada aplicativo novo é mais um tablet tocando no balcão, mais um cardápio para manter, mais um estoque para controlar e mais uma nota para cuidar. Antes de olhar a comissão, responda três perguntas:
- A cozinha aguenta mais pedidos no horário de pico? Se a sexta à noite já está no limite, mais um app só aumenta o atraso, e atraso vira avaliação ruim em todos os aplicativos.
- Alguém consegue cuidar de mais uma loja? Pausar item que acabou, atualizar preço, responder avaliação e acompanhar cancelamento levam tempo todos os dias.
- O seu sistema recebe pedidos de mais de um app? Digitar pedido à mão em outro sistema é receita para erro. Veja se o seu PDV ou gestor de pedidos tem integração com o aplicativo novo.
Faça a conta por pedido, e não pela promessa
"Taxa zero" e "comissão menor" chamam atenção, mas o que importa é quanto sobra de cada pedido depois de tudo: comissão, pagamento online, mensalidade, frete, cupons que você banca e embalagem.
Exemplo hipotético: um pedido de R$ 60.
| App A (você entrega) | App B (o app entrega) | App C (promoção de lançamento) | |
|---|---|---|---|
| Comissão | 12% = R$ 7,20 | 23% = R$ 13,80 | 0% = R$ 0,00 |
| Pagamento online | 3,2% = R$ 1,92 | 3,2% = R$ 1,92 | 3,2% = R$ 1,92 |
| Entrega | seu motoboy | incluída | depende do contrato |
| Fica com o canal | R$ 9,12 + entrega | R$ 15,72 | R$ 1,92 + o que o contrato cobrar |
Repare em três detalhes que costumam passar batido:
- Promoção tem prazo. Pergunte por escrito qual será a comissão quando a isenção acabar e a partir de quando o prazo conta. Faça a conta com o valor depois da promoção.
- Cupom que você banca entra na conta. Aplicativo novo costuma pedir desconto para "dar tração". Se o cupom sai do seu bolso, a taxa zero some rápido.
- O prazo de repasse pesa no caixa. Dinheiro que demora 30 dias para cair custa mais do que dinheiro que cai em 7. Pergunte o prazo e se a antecipação é cobrada.
Se você ainda não sabe quanto custa cada prato, comece por aí: sem o CMV certo, nenhuma comparação entre aplicativos fecha. Explicamos como calcular no artigo CMV mal calculado: como um erro na planilha pode acabar com o seu restaurante.
Antes de assinar, leia estes pontos do contrato
- Exclusividade: existe alguma cláusula que proíbe ou penaliza você por estar em outro aplicativo? Depois da decisão do TJ-SP, esse ponto ficou ainda mais importante.
- Preço: o contrato exige que o preço no app seja igual ao do balcão ou do seu canal próprio?
- Comissão depois da promoção: qual é o percentual e quando começa a valer?
- Entrega: quem leva o pedido, quanto custa e quem responde por atraso ou extravio?
- Saída: como cancelar e se há multa ou aviso prévio.
Na dúvida, peça a proposta completa por escrito e compare com calma. Nenhum contrato de aplicativo precisa ser assinado no mesmo dia.
Como testar sem bagunçar a operação
Se a conta fechar, entre aos poucos:
- Comece com um cardápio enxuto: os itens que mais vendem e que a cozinha prepara rápido. Cardápio grande num app novo só aumenta a chance de erro.
- Escolha os horários: se o pico já está cheio, abra o app novo primeiro nos dias e horários fracos, quando sobra capacidade.
- Meça por 60 a 90 dias: quantos pedidos vieram, ticket médio, quanto sobrou por pedido, cancelamentos e notas. Compare com o mesmo período no app que você já usa.
- Observe se o pedido é novo ou só mudou de lugar. Se o volume total não cresceu e os pedidos só migraram de um app para outro, você ganhou trabalho, e não clientes.
Cliente novo no app, cliente fiel no seu canal
Mais um aplicativo é mais uma vitrine para quem ainda não conhece o seu restaurante. O cliente que pede pela primeira vez continua sendo do aplicativo, e não seu. O caminho para não depender de nenhum deles continua o mesmo: um canal próprio de pedidos, divulgado onde a relação já é sua (salão, Instagram, Google e WhatsApp), respeitando as regras de cada plataforma. Mostramos o passo a passo no artigo Como diminuir a dependência do iFood sem perder vendas.
Cada tipo de negócio sente essa disputa de um jeito. Para pizzarias e hamburguerias, a guerra de cupons é o maior risco. Para açaiterias, o que pesa é o custo dos complementos. Para o restaurante japonês, é a margem curta de cada peça.
Resumo
- A Keeta chega a 21 novas cidades, a 99Food oferece taxa zero e a Justiça derrubou cláusulas de exclusividade: muitos restaurantes vão receber propostas.
- Antes da comissão, veja se a cozinha, a equipe e o sistema aguentam mais um aplicativo.
- Compare quanto sobra por pedido, com o valor depois da promoção, os cupons que você banca e o prazo de repasse.
- Leia exclusividade, preço, entrega e saída no contrato, e peça tudo por escrito.
- Teste com cardápio enxuto e nos horários fracos, por 60 a 90 dias, e veja se o pedido é novo ou só mudou de app.
- Use os aplicativos para ser descoberto e o canal próprio para o cliente voltar.
Fontes
- Keeta volta a expandir no Brasil e chega a 21 cidades (Mobile Time, outubro de 2026).
- Keeta retoma expansão e avança para 21 novas cidades (InfoMoney, outubro de 2026).
- 99Food elimina taxas e comissões para restaurantes por dois anos (Jovem Pan, maio de 2025).
- iFood para parceiros: Taxas do iFood para restaurante: planos e comissões (consultado em outubro de 2026).
