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CMV mal calculado: como um erro na planilha pode acabar com o seu restaurante

Com o custo dos pratos errado, cada promoção, anúncio e combo aumenta o prejuízo em vez do lucro. Veja os erros mais comuns no cálculo do CMV e como corrigir antes de investir em marketing.

Por Equipe LP MídiasPublicado em 8 min de leitura

O salão cheio, o aplicativo apitando a noite inteira, a equipe correndo. E, no fim do mês, o dinheiro não aparece. Essa cena é mais comum do que parece: segundo a pesquisa de conjuntura da Abrasel, só 42% dos bares e restaurantes tiveram lucro em julho de 2026. Outros 37% ficaram no zero a zero e 20% fecharam no prejuízo, e esse foi o melhor resultado desde dezembro de 2025.

Vender mais não garante lucro. Ao comentar a pesquisa, Marcelo Uliana, presidente da Abrasel no Espírito Santo, lembrou que "é preciso conhecer os custos, controlar a operação" e decidir de um jeito que transforme faturamento em resultado.

E o primeiro custo a conhecer é o CMV. Quando ele está errado, o problema não fica parado: toda ação de marketing que você faz em cima dele multiplica o erro.

O que é CMV (e por que ele engana)

CMV é o Custo da Mercadoria Vendida: quanto você gastou em insumos para produzir o que vendeu num período. No restaurante, entram os ingredientes e, no delivery, também a embalagem e os descartáveis que vão com o pedido.

Existem duas formas de olhar para ele, e as duas são necessárias:

  • CMV teórico: o que cada prato deveria custar, de acordo com a ficha técnica.
  • CMV real: o que a operação de fato consumiu no mês, medido pelo estoque.

A conta do CMV real é simples:

CMV = estoque no início do mês + compras do mês − estoque no fim do mês

Para chegar ao percentual, divida o CMV pelo faturamento do mesmo período e multiplique por 100.

O engano mais comum é tratar o valor das compras do mês como se fosse o CMV. Se você comprou muito no fim do mês, o CMV parece alto; se usou o estoque que já tinha, parece baixo. Sem contar o estoque, o número oscila e não diz nada.

Os erros que mais distorcem o custo dos pratos

1. Usar o peso que você compra, e não o que vai para o prato

Carne tem gordura e nervo, legume tem casca, peixe tem espinha. O que você paga é o peso bruto; o que chega ao prato é o peso líquido. A relação entre os dois é o fator de correção (peso bruto ÷ peso líquido), e ele precisa estar na ficha técnica.

Exemplo hipotético: você paga R$ 60 no quilo de fraldinha e, depois de limpar, sobram 800 g. O fator de correção é 1 ÷ 0,8 = 1,25, então o quilo que realmente vai para o prato custa R$ 75. Se a ficha técnica usa R$ 60, cada porção de 200 g custa R$ 12 na planilha e R$ 15 na vida real.

2. Esquecer o que não aparece no cardápio

Óleo de fritura, sal, temperos, molho da casa, o sachê de ketchup, o guardanapo, a sacola, o lacre da embalagem. Cada item custa centavos, mas os centavos se repetem em todo pedido. No delivery, só a embalagem pode pesar mais que alguns ingredientes.

3. A porção da ficha técnica não é a porção servida

A ficha diz 150 g de batata e a cozinha serve "uma mão cheia". Sem padrão de porcionamento (balança, medidor, foto do prato montado), o CMV real fica sempre acima do teórico, e ninguém sabe exatamente por quê.

4. Calcular uma vez e nunca mais atualizar

O preço da carne, do queijo e do óleo muda o tempo todo. Uma ficha técnica de seis meses atrás pode estar mostrando um lucro que não existe mais. Na mesma pesquisa da Abrasel, 36% dos estabelecimentos disseram não ter conseguido reajustar os preços. Quem não sabe o próprio custo nem percebe que precisava reajustar.

5. Olhar o CMV e esquecer o canal de venda

O custo do prato é o mesmo no salão, no aplicativo e no seu cardápio digital, mas o que sobra dele é bem diferente. No iFood, por exemplo, a comissão é de 12% no Plano Básico e de 23% no Plano Entrega, mais 3,2% de taxa de pagamento online (valores informados pelo iFood em setembro de 2026; confira sempre os do seu contrato). Um prato com CMV saudável no balcão pode deixar uma margem apertada no aplicativo.

Onde o marketing transforma o erro em prejuízo

Marketing é um amplificador: ele faz você vender mais do que já vende. Se cada venda dá lucro, ótimo. Se cada venda dá um prejuízo escondido, o marketing faz esse prejuízo crescer mais rápido.

Promoções e cupons

Exemplo hipotético: um lanche custa R$ 40. Na planilha, o custo dele é R$ 12 (30% do preço). Corrigindo o fator de correção da carne e somando embalagem e sachês, o custo real vai para R$ 17. Agora você lança 20% de desconto no aplicativo, no Plano Entrega. Para simplificar, considere as taxas (23% + 3,2%) sobre o valor pago pelo cliente:

Na planilha Na vida real
Preço com 20% de desconto R$ 32,00 R$ 32,00
Taxas do aplicativo (26,2%) − R$ 8,38 − R$ 8,38
Custo do lanche − R$ 12,00 − R$ 17,00
Sobra para pagar todo o resto R$ 11,62 R$ 6,62

"Todo o resto" é aluguel, equipe, energia, impostos e o próprio marketing. A promoção que parecia deixar R$ 11,62 por pedido deixa 43% menos. Se ela vender 800 lanches no mês, são R$ 4 mil a menos do que você imaginava, num mês em que você trabalhou mais do que nunca.

Anúncios pagos

A sobra por pedido (a margem de contribuição) é o limite do que você pode pagar para conquistar um pedido com anúncios. No exemplo acima, quem confia na planilha acha que um anúncio que traz pedidos a R$ 9 cada é um bom negócio, porque sobram R$ 11,62. Com a conta certa, cada um desses pedidos tira R$ 2,38 do seu bolso. E, como os números do anúncio parecem bons, a tendência é aumentar o investimento.

Combos e carro-chefe

O prato que mais vende nem sempre é o que mais dá lucro. Com o custo errado, você monta combos em volta do item errado e coloca no topo do cardápio justamente o que menos deixa dinheiro. Explicamos como cruzar vendas e margem no artigo Engenharia de cardápio: como aumentar o ticket médio do seu delivery.

O erro ao contrário: cortar demais

Quando o susto chega, a reação comum é diminuir a porção ou trocar o ingrediente sem avisar. O CMV cai na planilha, mas o cliente percebe: chegam as avaliações ruins, a nota no aplicativo cai, a loja perde posição na busca e cada novo pedido passa a custar mais marketing para conquistar. Um CMV baixo demais pode ser tão perigoso quanto um alto demais.

Como calcular o CMV do jeito certo

  1. Monte a ficha técnica de cada item: ingredientes com peso líquido, fator de correção, embalagem e descartáveis.
  2. Calcule o CMV teórico de cada prato: custo do prato ÷ preço de venda.
  3. Conte o estoque no início e no fim de cada mês: se contar tudo for difícil, comece pelos insumos que mais pesam no custo (carnes, queijos, bebidas, embalagens).
  4. Calcule o CMV real com a fórmula do estoque e compare com o teórico. A diferença é dinheiro saindo por desperdício, porção fora do padrão, erro de cadastro ou desvio.
  5. Calcule a margem de contribuição por canal: preço − custo do prato − taxas do canal. Faça a conta para o salão, para cada aplicativo e para o seu canal próprio.
  6. Atualize a ficha técnica sempre que um insumo importante subir de preço, e revise tudo pelo menos a cada três meses.

Exemplo hipotético do tamanho do vazamento: um delivery que fatura R$ 100 mil por mês, com CMV teórico de 30% e CMV real de 36%, perde R$ 6 mil todo mês sem perceber, R$ 72 mil em um ano.

Qual é o CMV ideal?

Uma faixa bastante citada para restaurantes é de 25% a 35% do faturamento, mas ela varia com o tipo de operação: hamburgueria, pizzaria, comida japonesa e self-service têm realidades diferentes. Mais importante do que perseguir um número de mercado é conhecer o seu, acompanhar mês a mês e entender a diferença entre o teórico e o real.

Antes de investir em marketing, faça esta conta

Promoção, anúncio, cupom e combo são ferramentas para vender mais. Mas só fazem sentido quando você sabe quanto sobra de cada venda. Com o CMV certo, o marketing deixa de ser aposta e vira conta: você sabe até quanto pode pagar por um pedido, qual desconto cabe na margem e quais pratos merecem destaque.

Depois de acertar o custo, vale olhar para o canal: veja Como diminuir a dependência do iFood sem perder vendas.

Resumo

  • CMV é o custo dos insumos do que você vendeu: use a fórmula com estoque, e não só as compras do mês.
  • Compare o CMV teórico (ficha técnica) com o real (estoque): a diferença é dinheiro vazando.
  • Inclua fator de correção, embalagem, descartáveis e itens "invisíveis" na ficha técnica.
  • Padronize as porções e atualize os custos quando os insumos subirem.
  • Calcule a margem de cada canal de venda, com as taxas de cada um.
  • Só faça promoção, anúncio ou combo depois de saber quanto sobra por pedido.

Fontes

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